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língua da p

 

Eu meu algoz.

Não é de curtir, é atroz.

Celacantos, maremotos, sinto um horror que é feroz.

As diferenças entre o se morrer e o se matar são desatamento de nós.

 

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Há sentimentos que se conservam em caixas, como podem? Como pôde Pandora inventar tal eloquência? São adaptáveis como moléculas líquidas, mas não transbordam e permanecem contidos, afeitos de sólidos, prontos pra um futuro eventual.

Alguém está por aqui, um outro sempre esteve por lá, e sentimentos que se acomodam em caixas demonstram seus vastos talentos em fazê-los juntos, num instante, que viceje, que voe, que farfalhe, e que relembre delicadezas desapercebidas.

Improváveis são cada uma das viabilidades da vida. DSC_0031

The path between my mind and my heart is a winding way to go.

I’ll climb and hike and that’s so.

But, if I may, you should know: not to be Regina, no.

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A Vida, essa diligente, e o Tempo, esse delegador, trabalharam numa curva curiosa pra mim, me derrubando e me apresentando tudo aquilo que é base, chão, fundamento, e me ajudando a cultivar pequenos potenciais de pujança que me fazem de novo de pé.

mel larva

Querido Cine Fantasma,
Los Angeles é uma cidade familiar. Seus fantasmas são super camaradas, e promovem essa energia ectoplásmatica que nos assombram de várias maneiras diferentes…
Clark Gable mandou lembranças, e minha mãe vai morrer quando souber que ele deixou um beijo pra ela. Laurel e Hardy, o Gordo e o Magro me disseram que lembrasse ao meu pai como ele gosta de rir, e como isso é importante na vida de qualquer um.
Marilyn Monroe aproveitou pra me lembrar todas as nuances e agruras de qualquer manifestação feminista e Angela Davis concordava ao lado, sustentando que isso se estende também a qualquer forma de racismo, e precisamos nos manter unidos como irmãos.

Fala-se muito sobre como fazer-se dinheiro por aqui, óbvio. Mas se a princípio, num paradoxo, próxima a qualquer das forças produtoras estabelecidas – mesmo quando elas se nominam independentes – a ideia me soava distante como um corpo celeste – talvez uma estrela qualquer de Hollywood – quando eu fui tomar cerveja num bar de negros de um subúrbio antigo e menos abastado de Los Angeles, eu pude perceber uma variável dessa ideia com a qual pude me integrar. Mesmo onde só se fala em dinheiro é possível encontrar forças artísticas e coletivas imbuídas numa existência de intervenções sociais. Cinema é pão, cinema é vinho. Nesse caso, vinho californiano.
Los Angeles, como a maioria das grandes cidades, tem muitos lados, muitas histórias, muitas diferenças.
O motivo original para eu estar aqui é que eu tomasse parte na missão Coletivos Criativos, organizada pela agência IR.wi, em parceria com o Ministério da Cultura e a LATC – Latin America Trading Center, que trouxe integrantes de diversos coletivos brasileiros que lidam com o audiovisual pra conhecer profissionais do mercado transmídia.
Mas eu sou uma mulher de sorte e que tem muito bons amigos, e eu pude conhecer a cidade de outro jeito. Por indicação de uma amiga de Niterói, acabei conhecendo o Daniel, americano filho de filipino com mexicana, lutador de Jiu-Jitsu brasileiro, dono da cidade que conhece como a palma da própria mão.
Então, paralelamente aos fantasmas businessman que me assombraram durante os dias, fantasmas incautos e cultos de vida e de existência me assombraram durante as noites. Já no primeiro dia, após entrevista com Will Nix e Nancy Cushing-Jones da WNA, comecei a noite numa festa do departamento de geografia da UCLA no teto de um antigo hotel de Downtown LA e terminei comendo tacos num food truck numa velha área de imigrantes. No segundo dia, entrevista com a Producer Guild of America com a Independent Film & Television Alliance seguida de uma noite em clima de rock californiano no bar mais velho de Culver City, o The Cinema Bar.
E assim fui cruzando os dias e as noites até que chegou o sábado, e junto com ele a visita ao Universal Studios. E lá, para além da profissional de cinema ou da turista enfeitiçada, eu fui criança. Deliciosos fantasmas do meu passado apareceram pra uma prosa, um chamego, e novos fantasmas desencarnados digitalmente em projeção 4D pediram licença e se apresentaram.
Foi nessa leva aí que um fantasma me tocou de modo diferente. King Kong, meu querido de longa data, cruzou as linhas e, para além de existir no meu passado, chegou a minha presença em 4D. Ele olhou nos meus olhos, bafejou morno e úmido no meu rosto, e com um pulo e muitos golpes matou o tiranossauro rex que me ameaçava. Aí eu chorei. Cada múltiplo de qualquer idade da minha infância se desdobrou por todos os meus 40 anos, e fui criança muitas vezes…
Los Angeles contém todo mundo. Venice Beach contém meus pais e seus sonhos pra velhice, Beverly Hills contém acalentos a memórias adolescentes da minha irmã, os estúdios de cinema contêm o alimento para a alma normal do meu irmão.
Fui assombrada. E ao meu lado, muitos fantasmas seguraram-me pelas mãos, enquanto sussurravam em meus ouvidos delícias de cinema.

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Colo vem de collum, região estreitada, dando em pescoço. Estreitados são abraços, dos bons, colando colo a colo. Porque há a carne e a unha, a corda e a caçamba, little Mary and the lamb.

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Meu sofrimento é cheio das confusões. Humana humanamente dilacerada de humanidade. Pra quem quer falar de ser bicho, eu tô mal, viu?

Bateu uma droga de um sentimento de desamparo, de não saber o que fazer, de não ter pra quem pedir ajuda, mas a verdade é que em uma hora, um amigo cedeu um ombro pelos dois minutos que podia, a filha pródiga à casa tornou, papo de trinta minutos, e aquele que detém o poder de tal maneira que me permite acreditar que o poder é meu, generosamente entendeu aquela vaga necessidade, e me deixou pensar coisas, porque pensar eu preciso. E pios de apreço e suporte gorjearam nas redes que são sociais.

Desamparada é coisa que não estou.

Por que então, meu Deus?

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Era uma vez um Lion e uma Margarida e um fantástico entardecer. Após longos dias de invariáveis contratempos, encarnados em pesadelos e borras coloridas, ambos precisavam de um lânguido banho de sol. Lion bocejara seu desejo por um piquenique e Margarida imediatamente comprara a idéia. E os ingredientes para os quitutes primaveris que preparara.
Um pouco de antes de partirem Lion estava todo alvoroçado e disse que precisava sair por alguns minutos e já voltaria. Como normalmente era preguiçoso deixou Margarida curiosa com seu comportamento, mas ela tinha tantas miudezas para organizar que logo esqueceu.
Pouco tempo depois Lion voltou, todo ensopado. Começara a chover. Margarida ficou desapontada, imaginou que acabara qualquer chance de fazer o piqueninque, mas Lion prontamente avisou:
- Que nada, essa chuva vai passar. Prometo.
Ele fora tão assertivo que mesmo em meio a embaçadas dúvidas, ela aquiesceu e prosseguiu.
Quando saiam, ainda na varanda, Margarida olhava a chuva que caía espessa e não disfarçava seu desapontamento.  Lion abraçou-a e repousou a pata pesada na curva do quadril dela. Neste momento ela começou a se sentir morna e percebeu que pouco a pouco a chuva cedia e o sol penetrava o véu das nuvens. Ela sorriu. Lion pressionou a pata conduzindo-a, e assim tomaram o caminho da roça.
E nesse caminho, emoldurando o céu que se abria, figurava o mais belo e largo arco-íris de nove cores que já existiu.
Margarida, embevecida, perguntou:
- Foi você, Lion?
Com um sorriso jocoso ele respondeu que não. Mas ela sabia que sim.

Escolho lembrar. Difícil tarefa, não sei muito bem se quiçá benfazeja, mas que é a que desempenho, por escolha. Há um tanto de veneno nisso, que reverto em medicina, com razoável eficácia. Razoável, contudo, reconheço. Às vezes vazada por variáveis ou contusões que levemente-transbordam-ou-expelem-levemente esse tanto de veneno pra além do sub-repticiamente suportável.

Escolho lembrar sabendo das dores daí advindas, porque reconheço nisso um jeito peculiar de resistir e estar vivo, na curva do erro, no viés desarrazoado, na fração bestial – mais pra bicho que demônio.  Se há nisso algum masoquismo ou auto-flagelo, eu não saberia dizer.  O que digo e sei é que aplacar a dúvida me impede o amargor.  E este é meu verdadeiro temor em vida, que o amargo em mim sobrepuje qualquer dos outros sabores.

Então, eu lembro. Tanto dos afagos quanto dos beliscões. Mesmo que beliscões sejam mais. Porque algo esquisito em mim acredita que só um bicho gente pode seguir, mesmo assim.

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