Eu ia escrever uma carta linda, falando de todos os grandes avanços que performei. Era pra ser uma carta de aniversário, de parabéns e presente, que em dadas circunstâncias me fazia acreditar que falar dos meus particulares avanços seria um gosto gostoso de perceber.

Sabe quando a gente exagera, quando a gente reage de forma atabalhoada e destoante, de forma recorrente com uma mesma pessoa, e aí, a despeito de todos os amores e afeições, essa pessoa fica pra sempre ressabiada contigo? Pois é, estamos falando do aniversário dessa pessoa aí, que é pra lá de ressabiada com essa pessoa que eu sou aqui.

Tivemos anos ruidosos ao longo do caminho. Eu, planejada de amor desde a eternidade, quisera que ele fosse todo meu sonho e ambição, com seus náufragos e baleias e rios lunares… mas ele tinha planos próprios que não me incluiam, ou pelo menos não como eu quisera, e eu então fiz-me distante de uma distância ciosa de esquecimento…

E longa também foi a estrada que nos trouxe uma mesma esquina… e por histórico e conceito prévio, ficou o acordo tácito que eu falo muito, eu peço muito, eu custo muito, eu quero muito. E assim, eu nunca mais soube qual a linha tênue que separa o muito desses verbos aí.

Tento dizer com leveza. Dou graças por minhas graças. Estudo a parcimônia. Namoro o estoicismo.

Assim, com o tempo, cheguei num lugar que achei bacana, acreditei nos passos dados e na vontade suprema de que, como um maquiavélico shakespeareano, all is well that ends well.

Agora, você vê: era uma vez eu, chegada a mais um aniversário daquele que de tanto amor sufoquei, crente que estava mudada, adulta, possível, pronta pra escrever uma cartinha fofa falando de tudo isso, e como eu estava feliz em sermos bons amigos, sem ambiguidades, e aí me aparece o facebook… com seus comentários, ou com a falta deles, e eu descubro a latente e cínica ironia (assim mesmo, no excesso)… meu muito não virou pouco, ele continua demais. E se nesse inferno de agora e Dantes, há algo de anjo em mim, é como Rô Rô lembrando que vou passar minha vida esquecendo você…

E como sei que apesar de parecer pública, esta carta será pra sempre privada, nunca lida por ele, vou postá-la hoje, acreditando numa macumba do universo, que, pelo poder das palavras, entenda o grito surdo que a tudo permeia, que se este amor tem que ser, mesmo que eu saiba que ele não é, que ele invente uma mágica e seja sem dolo ou mácula.

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