Querido Cine Fantasma,
Los Angeles é uma cidade familiar. Seus fantasmas são super camaradas, e promovem essa energia ectoplásmatica que nos assombram de várias maneiras diferentes…
Clark Gable mandou lembranças, e minha mãe vai morrer quando souber que ele deixou um beijo pra ela. Laurel e Hardy, o Gordo e o Magro me disseram que lembrasse ao meu pai como ele gosta de rir, e como isso é importante na vida de qualquer um.
Marilyn Monroe aproveitou pra me lembrar todas as nuances e agruras de qualquer manifestação feminista e Angela Davis concordava ao lado, sustentando que isso se estende também a qualquer forma de racismo, e precisamos nos manter unidos como irmãos.
Fala-se muito sobre como fazer-se dinheiro por aqui, óbvio. Mas se a princípio, num paradoxo, próxima a qualquer das forças produtoras estabelecidas – mesmo quando elas se nominam independentes – a ideia me soava distante como um corpo celeste – talvez uma estrela qualquer de Hollywood – quando eu fui tomar cerveja num bar de negros de um subúrbio antigo e menos abastado de Los Angeles, eu pude perceber uma variável dessa ideia com a qual pude me integrar. Mesmo onde só se fala em dinheiro é possível encontrar forças artísticas e coletivas imbuídas numa existência de intervenções sociais. Cinema é pão, cinema é vinho. Nesse caso, vinho californiano.
Los Angeles, como a maioria das grandes cidades, tem muitos lados, muitas histórias, muitas diferenças.
O motivo original para eu estar aqui é que eu tomasse parte na missão Coletivos Criativos, organizada pela agência IR.wi, em parceria com o Ministério da Cultura e a LATC – Latin America Trading Center, que trouxe integrantes de diversos coletivos brasileiros que lidam com o audiovisual pra conhecer profissionais do mercado transmídia.
Mas eu sou uma mulher de sorte e que tem muito bons amigos, e eu pude conhecer a cidade de outro jeito. Por indicação de uma amiga de Niterói, acabei conhecendo o Daniel, americano filho de filipino com mexicana, lutador de Jiu-Jitsu brasileiro, dono da cidade que conhece como a palma da própria mão.
Então, paralelamente aos fantasmas businessman que me assombraram durante os dias, fantasmas incautos e cultos de vida e de existência me assombraram durante as noites. Já no primeiro dia, após entrevista com Will Nix e Nancy Cushing-Jones da WNA, comecei a noite numa festa do departamento de geografia da UCLA no teto de um antigo hotel de Downtown LA e terminei comendo tacos num food truck numa velha área de imigrantes. No segundo dia, entrevista com a Producer Guild of America com a Independent Film & Television Alliance seguida de uma noite em clima de rock californiano no bar mais velho de Culver City, o The Cinema Bar.
E assim fui cruzando os dias e as noites até que chegou o sábado, e junto com ele a visita ao Universal Studios. E lá, para além da profissional de cinema ou da turista enfeitiçada, eu fui criança. Deliciosos fantasmas do meu passado apareceram pra uma prosa, um chamego, e novos fantasmas desencarnados digitalmente em projeção 4D pediram licença e se apresentaram.
Foi nessa leva aí que um fantasma me tocou de modo diferente. King Kong, meu querido de longa data, cruzou as linhas e, para além de existir no meu passado, chegou a minha presença em 4D. Ele olhou nos meus olhos, bafejou morno e úmido no meu rosto, e com um pulo e muitos golpes matou o tiranossauro rex que me ameaçava. Aí eu chorei. Cada múltiplo de qualquer idade da minha infância se desdobrou por todos os meus 40 anos, e fui criança muitas vezes…
Los Angeles contém todo mundo. Venice Beach contém meus pais e seus sonhos pra velhice, Beverly Hills contém acalentos a memórias adolescentes da minha irmã, os estúdios de cinema contêm o alimento para a alma normal do meu irmão.
Fui assombrada. E ao meu lado, muitos fantasmas seguraram-me pelas mãos, enquanto sussurravam em meus ouvidos delícias de cinema.
